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Chuva de milhões

 
Betim, Contagem e Nova Lima, na Grande Belo Horizonte,
atraem investimentos de empresas interessadas
em expandir seus negócios
 

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano           

Renata Neves

   Por trás do balcão da loja de móveis, Orlando Domingos de Souza assiste ao crescimento de Betim. O aumento do número de pessoas que caminham apressadas pela Avenida Amazonas, principal via central do município, e o movimento intenso de carros emplacados em outras cidades – especialmente em Belo Horizonte – são dois sinais claros da expansão da economia local. Morador de Betim há 22 anos, Orlando não tem dúvida de que o município está entrando em um novo ciclo de prosperidade, como aconteceu na época da instalação da Fiat na região, no início da década de 70. “Os investimentos que estão vindo para a cidade vão incrementar todos os setores da nossa economia”, afirma o gerente da Móveis São Geraldo.
 

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano              

Orlando de Souza mora em Betim há 22 anos e está acompanhando o crescimento da cidade
  

  Orlando sabe que Betim está na mira de muitos empresários interessados em ampliar seus negócios a partir de Minas Gerais. A vizinha Contagem também é preferida por muitas companhias. Assim como Nova Lima, que, depois de quase dois séculos vivendo às custas da Mineração Morro Velho, se transformou em foco de atração de negócios. Juntas, as três cidades receberam quase R$ 500 milhões em investimentos nos últimos três anos. E se preparam para abraçar a mesma quantia até o fim de 2001.

  O dinheiro vai chegando junto com os tratores, máquinas e equipamentos que fazem a terraplanagem dos terrenos e erguem pilares que irão sustentar as futuras fábricas. Ao redor dos grandes empreendimentos, são criados inúmeros pequenos projetos impulsionados pelas perspectivas de crescimento econômico. Surgem novos hotéis, restaurantes, pontos de lazer, academias de ginástica, consultórios médicos e odontológicos.

  Veja o caso da dentista Walânia Martins Oliveira Lage. Ela fez uma pesquisa de mercado e constatou que ganharia muito mais dinheiro trabalhando em Betim do que se continuasse em Belo Horizonte. A seu favor, contou o fato de o marido já trabalhar na Fiat. Assim, logo que concluiu o curso de especialização em endodontia (tratamento de canal), no ano passado, ela se mudou com a família para Betim.

  Tomou a decisão baseada nas recomendações da Organização Mundial de Saúde que prega que, em cada cidade, deve haver um dentista para, no mínimo, cada 1,5 mil habitantes. Em BH, a proporção é de um profissional para cada 400 pessoas. “A área de odontologia está muito saturada na Capital”, diz Walânia. Agora, morando em um município de 300 mil habitantes e com apenas outros nove endodontistas, ela não não tem do que reclamar: a relação é de um especialista para cada 30 mil pessoas.

  Antes de chegar em Betim, Walânia sempre escutava elogios à qualidade de vida encontrada na cidade. Hoje, é ela quem faz a propaganda. “Aqui, o trânsito flui mais rápido. Cinco minutos depois que saio de casa, estou no meu consultório. Em Belo Horizonte, sempre ficava presa no engarrafamento”, diz. A rapidez vale para quase todo compromisso. Se tiver que fazer compras, por exemplo, resolve tudo por lá, podendo optar pelo shopping inaugurado há pouco tempo na cidade. A capital só aparece como alternativa de lazer para a hora que dá vontade de ir ao teatro ou a algum show. “Como o deslocamento para BH é muito fácil e ágil, isso não é problema”, observa a dentista.

  
Aliás, a proximidade com a Capital, distante 26 quilômetros, serve de atrativo para empresários que estão escolhendo Betim para montar negócios. Os sócios Semy Davi Hissa e Anilton de Assumpção, que moram em Belo Horizonte, decidiram, há dois anos, instalar a fábrica de móveis Grécia no município interessados na facilidade de escoamento da produção. Hoje, eles já fazem planos de triplicar o faturamento anual com a expansão da indústria. De um galpão de 730 metros quadrados, a indústria vai ser transferida para uma área quase dez vezes maior no distrito industrial de Bandeirinhas, com um investimento de R$ 600 mil que vai gerar 80 novos empregos.

  Quando entrar em operação no novo local, a Móveis Grécia será vizinha da Plascar, fornecedora de plásticos para a Fiat, e da Santa Amália, produtora de massas, que funcionam no distrito de Bandeirinhas. A área, de 1,2 milhão de metros quadrados, foi implantada em 96 e ainda possui muito espaço disponível para receber grandes empreendimentos.

  Para lá, também vai ser transferida a indústria de produtos de limpeza e higiene pessoal Casa da Limpeza, há dez anos instalada no Centro de Betim. “A empresa precisa crescer junto com a cidade”, diz Edwilson Martins da Mata, proprietário da companhia em sociedade com o irmão Edilson Avelino. Eles estão gastando R$ 300 mil com os novos maquinários e a construção do prédio de 900 metros quadrados onde serão fabricados, a partir do ano que vem, 60 mil litros de produtos de limpeza – mais que o dobro do que é produzido hoje.

  Ainda que a economia de Betim, com um PIB (a soma das riquezas geradas no local) de R$ 3,6 bilhões – dados mais recentes, de 97 –, continue dependente da Fiat e da Petrobras, já é expressiva a participação de outras empresas na arrecadação da cidade. A evolução dos números do VAF, que é o indicador que mede a movimentação financeira no município e serve de base para a definição da cota da cidade na distribuição do ICMS recolhido no Estado são exemplo disso. Em 94, a Fiat e a Petrobras responderam por 88% do VAF de Betim, com o recolhimento de R$ 1,85 bilhão. As outras empresas participaram com os 12% restantes, um total de R$ 240 milhões. Nos dados mais recentes, de 98, a Fiat e a Petrobras garantiram 61% do bolo, recolhendo R$ 2,8 bilhões. Em contrapartida, as demais companhias aumentaram sua participação no VAF para 39%, com R$ 1,7 bilhão.

  “Isso mostra o crescimento e a diversificação da economia da cidade”, diz Luiz Fernando Pereira Mendes, secretário de Indústria, Comércio e Turismo de Betim. Segundo ele, de uma série de projetos em negociação com a prefeitura, pelo menos sete– incluindo o da Móveis Grécia e o da Casa da Limpeza – estão sendo fechados para serem implementados no município. Com isso, a cidade deve estar acolhendo, em breve, outra fábrica de móveis, uma indústria de máquinas para fabricação de sorvetes, uma empresa de terraplanagem, uma indústria de medicamentos e dois grandes laboratórios.

  Desde os anos 70, com a inauguração da Fiat, que levou vários de seus fornecedores para Betim, até hoje, com as novos investimentos, o município virou chamarisco de mão-de-obra. Pelos cálculos da prefeitura, a cidade recebe cerca de 20 mil pessoas por ano em busca de oportunidades, o equivalente à população de Nova Serrana.

  O secretário de Indústria, Comércio e Turismo faz questão de ressaltar que os investimentos em Betim poderiam ser ainda maiores, caso todos os demais municípios de seu entorno, como Esmeraldas e Ibirité, também fossem focos de atração de negócios. “É necessário preparar a infra-estrutura dessas cidades para aumentar suas potencialidades. Dessa forma, toda a região seria referência como pólo de investimentos”, diz Luiz Fernando.

  
A vizinha Contagem está fazendo sua parte. O município a 14 quilômetros de Belo Horizonte vive um novo ciclo de expansão de sua economia, gosta de ressaltar Lauro Rache, secretário de Planejamento da cidade. Só neste ano, entre janeiro e maio, foram confirmados 11 novos empreendimentos em Contagem. Somados aos projetos que chegaram desde o início de 97, são mais de R$ 460 milhões destinados ao município, com a criação de aproximadamente 12,7 mil empregos diretos.

  Além da cifra expressiva, a economia local está ganhando também com o novo perfil dos empreendimentos industriais. São, em sua maioria, plantas não poluentes erguidas por empresas com atividades de alto conteúdo tecnológico, em lugar dos antigos projetos que exigiam grandes espaços, equipamentos pesados e geravam emissão excessiva de partículas sólidas e gases danosos ao meio ambiente. É o caso da norte-americana Jabil Circuits, que já prepara a instalação na cidade de uma unidade de montagem de placas de circuitos impressos e equipamentos eletrônicos. E da Trench Brasil, que vai produzir equipamentos de transmissão eletrônica de alta voltagem.

  Ainda que essas empresas sinalizem um traço diferente na economia, a participação de mais de 70% do setor industrial no PIB local, de R$ 3,2 bilhões, reforçam a vocação do município. O visitante que chega na cidade vê logo a placa com os dizeres “Bem-vindo a Contagem, coração da indústria mineira”.

  Mas basta caminhar pelas ruas de seus bairros para encontrar um comércio e uma rede de serviços bem diversificados. Chegando à principal avenida que cruza a cidade, a João César de Oliveira, a loja Leroy- Merlin, de origem francesa, chama a atenção. Inaugurada recentemente, essa loja de materiais de construção é um dos empreendimentos do Itaú Power Center, onde estão sendo construídos também uma filial da norte-americana Wal-Mart, uma das maiores redes do mundo do ramo de supermercados, e um shopping.

  O complexo fica em um terreno de 150 mil metros quadrados e está de– mandando recursos da ordem de R$ 200 milhões, diz Carlos Eduardo de Almeida Gomes, diretor da Atrium, empresa responsável pela implantação do Itaú Power Center. Segundo ele, quando estiver em plena operação, o megaempreendimento terá gerado 5 mil empregos diretos. Ele conta que na análise dos locais onde poderia ser instalado o complexo, Contagem concorreu com a cidade de São Paulo e com municípios do interior paulista. “Contagem foi escolhida porque está próxima a Belo Horizonte, dispunha de terreno a baixo custo e possui um adensamento populacional que comporta um projeto de grande porte”, afirma Carlos Eduardo. A população da cidade é formada por 500 mil pessoas.
 

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano                       

Sandro Takahashi, da pastelaria Fujiyama, aposta na recuperação do comércio em Contagem
  

  A família de Sandro Takahashi já reservou um ponto na futura unidade do Wal-Mart. Ela é dona de uma rede de pastelarias, a Fujiyama, com quatro lojas em Contagem, três em BH e uma em Betim. Sandro, que gerencia a filial do bairro Eldorado, em Contagem, reclama da queda nas vendas de pastéis, mas aposta na recuperação do mercado em breve, pensando nos projetos que estão indo para o município. “Como muitos empregos serão gerados, o comércio vai se beneficiar com a volta dos consumidores ao mercado”, diz.

  Parte das novas vagas vai ser criada pela Suggar, que está reformando um antigo galpão onde vai funcionar sua fábrica de exaustores originada da parceria com um grupo italiano. A empresa vai contratar 170 empregados para trabalhar na produção anual de 600 mil exaustores. Lúcio Costa, presidente da companhia, assume que a escolha da cidade foi influenciada pelo movimento de empresas que estão transferindo negócios para Contagem. “Se fosse optar por outro município, levaria a fábrica para Nova Lima”, afirma.

  Ele sabe que essa cidade também tem sido foco de atração de investimentos, mesmo possuindo uma economia que não está entre as maiores do Estado – possui um PIB de R$ 460 milhões. Francisco Alves Guimarães, secretário de Desenvolvimento Econômico de Nova Lima, conta que raros são os dias em que não recebe um telefonema de consultor interessado em implantar algum empreendimento no município. No ano passado, foram viabilizados mais de dez projetos, como o da confecção Bruk’s, que saiu da capital mineira para gerar 60 empregos em Nova Lima, e o da fábrica de móveis Art Forma, que abriu outras 60 vagas.

  
São, na maioria, empreendimentos de menor porte, uma vez que o relevo acidentado da cidade e a falta de espaço disponível dificultam a instalação de grandes indústrias. É o caso da Massas Tia Mona, sediada desde 1986 em BH e transferida no ano passado para Nova Lima, em um investimento de R$ 3 milhões. “Procurava um local que não estivesse com o mercado saturado, que fosse calmo e sem poluição. Fui descobrir o reduto da empresa no meio das montanhas”, diz Francisco Borges, proprietário da companhia. Com a mudança, a Massas Tia Mona aumentou sua produção em 40%, passando a fabricar 6 mil toneladas de produtos por dia.

  As grandes obras estão se concentrando na região da Vila da Serra, conhecida como Seis Pistas, que fica muito próxima a Belo Horizonte. Lá, além dos hospitais Biocor e Doutor Ricardo Guimarães – chamado de Hospital de Olhos –, está o Hospital Vila da Serra, superequipado com instrumentos de alta tecnologia, que foi inaugurado recentemente, e a Faculdade de Direito Milton Campos. Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, outras instituições de ensino já adquiriram terrenos para implantar unidades no local.
  

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                  

Francisco Borges, proprietário da Massas Tia Mona, transferiu a empresa de BH para Nova Lima
  

  Francisco conta que o crescimento de negócios na cidade começou há menos de cinco anos, quando a Mineração Morro Velho encerrou suas atividades. Durante 166 anos, o município foi dependente da mineração do ouro, que gerou empregos para milhares de moradores da cidade ao longo de gerações e gerações. Quando fechou, a Morro Velho deixou 4,5 mil pessoas sem emprego. “A cidade precisava de um impacto como esse para se mobilizar na busca de outros investimentos que criasse novas oportunidades para seus 60 mil habitantes”, diz Francisco.

  Assim, chegou o Alphaville, que está gastando R$ 59 milhões para construir na área da Lagoa dos Ingleses um condomínio luxuoso em um terreno de 4,3 milhões de metros quadrados. No lançamento do empreendimento no ano passado, todos os 1.545 lotes foram vendidos em seis horas. “A presença da rede de serviços diversificada e das instituições de ensino e pesquisa ajudaram a escolher Nova Lima entre os municípios da Região Metropolitana para abrigar o Alphaville”, afirma Augusto Martinez, presidente do Alphaville Lagoa dos Ingleses. Isso sem contar a proximidade com Belo Horizonte, a 22 quilômetros de distância.

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