Economia Estado de Minas

.REPORTAGEM DE CAPA

 

Vai melhorar?

  
Para as novas gerações, subir na vida no Brasil é algo mais difícil do que foi no passado. Hoje, enquanto uns sobem na escala social, outros caem
  

Renata Neves

  
A teoria das oportunidades individuais, pela qual é possível ao cidadão que se esforça e conta com certa dose de sorte subir na vida, sempre teve boa acolhida no Brasil. Aqui, há inúmeros casos de pessoas que ascenderam da mais humilde classe social para outras mais privilegiadas. Os últimos números a respeito, porém, indicam que a chance de melhorar de vida guarda estreita ligação com o crescimento geral da economia: a partir dos recessivos anos 90, ficou mais difícil para o brasileiro passar de pobre a rico.

   Hoje, quase sempre, para alguém subir na escala social, outra pessoa tem que descer. A mobilidade é alta – uma das maiores do mundo –, mas nem sempre para cima. Está aumentando o número de pessoas caminhando em direção à base da pirâmide social. Isso é fácil de ser observado pela pesquisa da demógrafa Flávia Cristina Drumond, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar/UFMG). 

   Ela estudou os movimentos sociais de homens e mulheres, de 20 a 64 anos de idade, das regiões metropolitanas de Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife em 1988 e 1996. Comparando dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesses dois momentos, chegou à conclusão de que, nos últimos anos, ficou mais difícil subir na vida.

   Em 96, de cada dez brasileiros, cinco melhoraram de posição em relação a seus pais – em 88, o mesmo tinha acontecido com seis pessoas. Ou seja, um brasileiro a menos conseguiu ascender socialmente. Realizando o movimento inverso, dois entre cada dez indivíduos desceram na escala social em 96 – oito anos antes, a proporção de queda era de uma pessoa para cada grupo de dez. Significa que um brasileiro a mais piorou de situação. O número dos que permaneceram no mesmo estrato foi o mesmo nos dois anos de análise: três indivíduos em cada dez.

   Esse comportamento da estrutura social brasileira é resultado de um mercado muito mais competitivo, bem diferente do contexto da época dos pais da atual geração, diz Flávia Drumond. Entre 1940 e 1970, o Brasil saiu de uma sociedade agrária e ingressou na era industrial, com a abertura de muitas oportunidades de trabalho em setores novos, como indústria, comércio, bancos, empresas estatais. Já nas décadas de 80 e 90, a situação de prosperidade mudou e o País amargou crises econômicas que fez acelerar o desemprego e aumentar a informalidade.

   Por outro lado, nos últimos anos melhorou o nível educacional da população, o que também ampliou a competição nos ambientes de trabalho. Cada vez mais, as empresas exigem maior número de atributos de seus empregados. Por exemplo: ter o ensino fundamental (antigo primeiro grau) há até pouco tempo era suficiente para um candidato concorrer a uma vaga de office-boy. Atualmente, muitas firmas só contratam uma pessoa para o cargo se ela tiver concluído o ensino médio (ex-segundo grau) e dominar conceitos de informática.

   “O peso da qualificação, competência e educação aumentou nos últimos anos”, diz o sociólogo José Pastore, também autor de estudos na área de mobilidade social. Nos últimos três anos, ele dedicou parte de seu tempo como professor e pesquisador da Universidade de São Paulo à análise de levantamentos do IBGE para examinar a estrutura da pirâmide social brasileira em 73 e em 96. Os dados mais recentes revelam que 63% dos chefes de família (todos homens) mudaram de status quando comparados com seus pais e 37% continuaram na mesma situação dos pais. Mais importante do que isso, observa Pastore, é que entre as pessoas móveis, cerca de 80% subiram na escala social e 20% desceram. Em outras palavras, a maioria das famílias brasileiras está em melhores condições do que a de seus antecedentes. “O mesmo quadro foi encontrado no início da década de 70, o que mostra que a sociedade brasileira era e continua móvel ao longo das gerações”, afirma o pesquisador.

   Mas essa mesma sociedade é também tão desigual quanto no passado. O País continua exibindo uma pirâmide social extensa na base e de pico muito reduzido. A ascensão geralmente ocorre em pequenas distâncias, com os indivíduos passando de um estrato social baixo para outro imediatamente superior. É o caso, por exemplo, de um motorista – representante da classe média baixa – filho de um vigia – classificado no estrato dos pobres. Já a quantidade de brasileiros que saltam vários degraus na escala social é muito pequena. A trajetória, diz Pastore, é sempre desigual: muitos sobem pouco e poucos sobem muito.

   Para a maioria, galgar um degrau na sociedade significa alcançar uma melhora muito modesta, como deixar de viver na roça, sem luz elétrica, e ir morar na periferia da cidade grande para trabalhar como servente de pedreiro, ganhando, às vezes, apenas um salário mínimo. Na comparação dos dados do IBGE fica claro que a classe que mais cresceu entre 73 e 96 foi a dos pobres, onde foram reunidos pelas pesquisas os trabalhadores sem qualificação, como empregadas domésticas, sapateiros e vendedores ambulantes. Essa categoria aumentou 46% em duas décadas. Um exército de filhos de trabalhadores rurais, bóias-frias, peões de fazenda e pescadores ascendeu para esse grupo, diminuindo em 25% a faixa dos muito pobres. Vale observar que, apesar da redução, nesse estrato mais baixo da sociedade a reprodução das condições sociais ainda é grande: 90% dos trabalhadores rurais são filhos de trabalhadores rurais.

   Mas no outro extremo da pirâmide social ela é mínima: 18,4%. Ou seja, menos de 20% dos integrantes da elite brasileira nasceram em berço de ouro. Mais de 80% chegaram nesta posição vindo de classes mais baixas. “A idéia de que a elite brasileira é produto da sua auto-reprodução é um mito”, afirma o professor Pastore. E seu clube de sócios continua aberto. Essa categoria inchou mais de um terço entre 73 e 96. No espaço de 23 anos, a elite, que abrigava 3,5% dos chefes de família, passou a reunir 4,9% deles. O IBGE não classifica nesse grupo somente os grandes empresários. Estão incluídos também os profissionais liberais de alta renda, os magistrados, os altos executivos, os professores de faculdades e os donos de negócios como restaurante e imobiliária.

  
Não são pessoas que vivem em condições de milionários como Abílio Diniz ou Antônio Ermírio de Moraes, mas que chegaram a essa posição graças a educação, uma pitada de sorte, espírito empreendedor e, quase sempre, uma história de vida marcada por muito sacrifício e persistência. É surpreendente deparar com a constatação de que 20% dos que fazem parte dessa elite são filhos de pais que viviam em condições miseráveis como trabalhadores rurais.

   Gente como Jairo Siqueira Azevedo, filho de um garimpeiro das redondezas de Diamantina, região mineira do Vale do Jequitinhonha, que construiu com sete irmãos um império que hoje fatura US$ 100 milhões anuais, o Grupo Seculus. Começou a trabalhar aos dez anos como ferreiro e, desde então, não parou mais. Ou como Ana Roberta da Cruz, que apesar de não estar nas estatísticas do IBGE, que só entrevistou homens em seus levantamentos, também tem uma trajetória de sucesso. Seu pai, falecido recentemente, era lavrador em Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte, e tinha apenas o primário, a mãe, dona de casa, é analfabeta. Com muita luta, Ana Roberta conseguiu conciliar estudo e trabalho, mas se tornou pedagoga e hoje coordena uma equipe de profissionais no Centro de Integração Escola-Empresa (CIEE), uma importante instituição de Minas que encaminha estagiários para grandes companhias.

  
Em um Brasil marcado pela desigualdade social, onde os 20% mais ricos têm renda 26,1 vezes maior do que os 20% mais pobres, conforme dados do Banco Mundial, pessoas que se deram bem na vida causam admiração pela façanha que realizaram. Pelos cálculos do IBGE, a possibilidade de um filho de pai muito pobre alcançar o pico da pirâmide é de 1,8% contra 98,2%. Os brasileiros que não conseguem chegar lá vão batalhando para, pelo menos, subir mais uma posição. De cada grupo de dez pessoas, sete circulam entre os três andares inferiores da pirâmide, se esforçando para pular para os estratos de cima, onde vão encontrar, de fato, o conforto. “O problema é que as oportunidades estão ficando cada vez mais restritas”, observa a pesquisadora Flávia Drumond.

   Hoje, nem mesmo ter um bom nível de instrução garante ascensão social. As chances, é claro, são maiores, mas a disputa no mercado de trabalho está aumentando as exigências aos profissionais. Na geração dos pais, quem estudava até a oitava série causava inveja em muita gente. Ter o segundo grau era coisa para poucos privilegiados. Mas na geração dos filhos isso se tornou comum e já não serve muito como diferencial. Os resultados da pesquisa de Flávia Drumond ajudam a dimensionar essa situação. Entre as pessoas da Grande Belo Horizonte que perderam posição social em relação aos pais, 57,7% têm nível de escolaridade melhor que o deles. Na Região Metropolitana de São Paulo, a proporção de indivíduos que passaram para um estrato mais baixo mesmo evoluindo na educação é um pouco maior: 62,1%.

  
Quando se observa a evolução do brasileiro ao longo de sua carreira também é possível constatar que o mercado não está nem um pouco bonzinho. A maioria das pessoas, mesmo as mais qualificadas, não está obtendo promoções no seu trabalho, permanecendo sempre no mesmo nível de ocupação. Segundo os dados gerais do IBGE analisados pelo professor Pastore, atualmente cerca de 61% dos profissionais continuam no mesmo grupo ocupacional em que começaram a trabalhar. Iniciar a carreira como marceneiro e depois se tornar eletricista, por exemplo, não significa ascensão social, pois, neste caso, o trabalhador permaneceu no mesmo estrato da classe média baixa.

   “Se para quem possui um currículo invejável já está difícil melhorar sua posição na sociedade, para o profissional sem qualificação é quase impossível subir um degrau na escala social”, diz Patrícia Alvarenga, responsável pelo setor de colocação do Senac em Belo Horizonte. Ela faz a afirmação com experiência de quem é especializada em recrutar profissionais para trabalhar em empresas. “Hoje, ter formação de segundo grau não estabelece emprego nem mesmo para funções pouco qualificadas”, observa. “Quem quiser crescer ou se manter numa posição precisa fazer o planejamento estratégico de sua carreira. Do contrário, pode ficar fora do mercado.”

   Com as dificuldades econômicas recentes, há inúmeros exemplos de famílias que retrocederam na escala social. Foi o que ocorreu com os filhos de Maria de Lourdes da Silva Simões, 55 anos. Administradora de empresas com especialização em psicologia industrial, tradutora e intérprete de inglês, ela sempre atuou na área de recursos humanos, inclusive como consultora e empresária de firmas de seleção de pessoal. Mas, há quatro anos, ela vem passando por problemas graves de saúde, que levaram ao seu desligamento do trabalho. Os negócios foram fechados e o dinheiro ficou curto para arcar com as despesas médicas. 

   Os filhos, Gisela, 25, e Gustavo, 22, que trabalhavam com a mãe e até então viviam com muito conforto, foram obrigados a procurar emprego em outras companhias e a adiar os planos de ingressar na universidade. “Minha renda caiu mais de 70%”, diz Maria de Lourdes, que é divorciada e recebe aposentadoria do INSS. Depois de vender os três carros da família e reduzir bastante os gastos em casa, ela começou a fazer doces sob encomenda na tentativa de engordar o orçamento.

   Em outros tempos – e, é claro, se a saúde de dona Maria de Lourdes ajudasse –, talvez sua família estivesse em melhores condições financeiras, mesmo com mudança no padrão de vida. Gisela, que é funcionária do setor administrativo de uma pequena fábrica de chapéu, poderia estar melhor colocada no mercado de trabalho. E Gustavo não precisaria mais enviar currículos na busca de emprego. A questão é que poucos conseguem se manter estáveis ou subir na pirâmide social. “Parece que está havendo a reprodução da chamada dança das cadeiras, pois quando a música pára, como na brincadeira infantil, há mais pessoas de pé do que cadeiras para sentar. Uns ficam de fora, enquanto outros conseguem manter seus postos de trabalho”, diz o economista Márcio Pochmann, professor da Universidade de Campinas, especializado em mercado de trabalho.

  
Se para a média da população está difícil melhorar de vida, para os grupos sociais vítimas de exclusão no Brasil a situação é ainda pior. Entre as mulheres, que já formam quase metade do mercado de trabalho e são responsáveis pelo sustento de 25% das famílias brasileiras, as chances de progredir na profissão costumam ser menores que as dos homens. Flávia Drumond, da UFMG, constatou em seu estudo que quase 60% das mulheres das regiões metropolitanas do País não conseguem promoção no primeiro emprego. Entre os homens, esse índice não passa de 35%.

   Tomando a raça como parâmetro, também há diferenças nos movimentos sociais dos brasileiros. “As pessoas de cor preta e parda que nasceram em famílias de alto status estão muito mais expostas ao risco de experimentar mobilidade social descendente e perder as posições sociais conquistadas na geração anterior”, afirma o professor Pastore. O filho de um branco que nasce na elite tem 38% de possibilidades de se manter nesta classe. Já as chances do filho de um negro nesta mesma situação são de 18%.
  

Com a mão na massa

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                 

Célia Soutto Mayor recuperou o elevado padrão de vida

As receitas de doces aprendidas com a bisavó mudaram a vida de Célia Soutto Mayor Assumpção Teixeira, 59 anos. Criada na classe média alta, ela se casou com um representante comercial do ramo de materiais de construção dono de algumas casas comerciais e continuou vivendo com muito conforto. Até que, há 30 anos, o marido passou por uma crise financeira que levou os negócios à bancarrota.
Célia então começou a fazer suspiros com a receita ensinada pela bisavó para vender sob encomenda. Com as gemas de ovos que iam sobrando, ela iniciou a produção de quindins. Na medida em que os elogios iam surgindo e os pedidos multiplicando, Célia incluía novos itens ao cardápio – bombons, tortas, salgadinhos. Nascia, assim, o Buffet Célia Soutto Mayor, um dos mais renomados da capital mineira. “Quando os negócios do meu marido entraram em crise, comecei a me preparar para um padrão de vida pior”, conta.
Mas o final da história foi diferente. Se a família já vivia com certo luxo, passou a contar com muito mais conforto. Hoje, os quatro filhos administram, além do buffet, um restaurante, duas lanchonetes e dois salões de festas.
  
De ferreiro a empresário

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                       

Jairo Azevedo ascendeu cinco posições na pirâmide social

Jairo Siqueira Azevedo subiu cinco degraus na pirâmide social, saindo de uma origem rural e se tornando empresário na cidade grande. Chegou ao topo junto com sete irmãos, que dividem com ele a sociedade do Grupo Seculus, holding formada por dez empresas, com negócios nos ramos de jóias, construção civil e imóveis, entre outros, que fatura US$ 100 milhões por ano.
Seu pai foi garimpeiro em Datas, região de Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, onde todos os filhos nasceram. Viviam em um casa tão apertada e com tamanha pobreza que, para dormir, Jairo dividia com um irmão, duas cadeiras que serviam de cama. O primeiro trabalho foi como ferreiro, aos dez anos. Um ano depois, se tornou pipoqueiro para ajudar o pai a pagar uma dívida de 20 contos de réis, na época, uma fortuna para a família. “Muita gente fala que começou a crescer a partir do zero. Eu, trabalhando para receber um dinheiro que não seria meu, comecei muito abaixo do zero”, diz Jairo, que apesar das dificuldades, conseguiu concluir o segundo grau sem repetir nenhum ano na escola.
Depois, virou vendedor de fogos de artifício, dono de bar e pequeno fabricante de quadros religiosos, até um conhecido contar que o comércio de jóias dava muito dinheiro. Começou em 1940, aos 21 anos de idade, junto com os irmãos, alguns deles ainda criança, a revender jóias em Belo Horizonte e no interior do Estado. A fabricação de jóias iniciou 15 anos mais tarde, dando origem à Seculus.
  
Educação e sucesso

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                  

Francisco Vidal saiu de escolas públicas para 
o doutorado na Inglaterra

Filho de pequenos comerciantes de Araguari, interior de Minas, Francisco Vidal, 43 anos, é professor do Departamento de Administração de Empresas da UFMG, com doutorado na Inglaterra. Sempre freqüentou escolas públicas e conseguiu bolsas de estudo para fazer os cursos de pós-graduação – do contrário, não teria o currículo que possui hoje. Felizmente, não precisou começar a trabalhar muito cedo e pôde se dedicar à sua formação. Segundo o IBGE, cada ano de trabalho precoce reduz em 10% as chances de ascensão social.
Francisco conta que nunca teve dúvidas de que sua vocação era ser professor e pesquisador. Escolheu a área de Engenharia Mecânica para se formar na graduação e trabalhou durante cinco anos em uma empresa de construção naval, como engenheiro. Resolveu voltar para a sala de aula e de lá não saiu mais, ora como aluno, ora como professor. “Sempre soube que se me acomodasse com minha formação ficaria descartável no mercado”, afirma.
  
À espera de oportunidades

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                     

Gustavo Silveira é publicitário, mas 
trabalha como vendedor

Quem vê a satisfação de Gustavo Luiz da Silveira Pinto no trabalho não imagina que, por trás de seu sorriso, há um sentimento de frustração. Formado há três anos em Publicidade, ele ainda não conseguiu emprego na área e se tornou, há quase dois anos, vendedor de uma loja de roupas em um shopping. “Continuo mandando currículos para agências e grandes empresas, mas ainda não tive sucesso”, diz.
Para não continuar desempregado, Gustavo apelou para outra área e não se arrependeu. “Gosto do que faço e preciso do dinheiro que recebo como salário, mas não é neste emprego que eu vou fazer carreira”, observa. Eventualmente, ele é contratado para algum trabalho de publicidade, mas nunca é nada fixo. Caso demore sua colocação no mercado publicitário mineiro, pretende ir para São Paulo ou para o Rio de Janeiro, onde, acredita, há melhores oportunidades. Aos 25 anos, Gustavo está batalhando para manter a herança social herdada pelo pai engenheiro e a mãe bibliotecária.
  
No clube dos ricos

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                

Eliana Pinho e Dirceu dos Santos têm origem humilde 
e estão na elite

Há 15 anos, o casal Dirceu Cecilio dos Santos e Eliana Pinho vendeu o telefone e o carro da família para montar uma pequena firma de representação comercial em Belo Horizonte, a Beleza Eterna. Hoje, a empresa é distribuidora exclusiva para Minas Gerais dos produtos Vita Derm, do segmento de cosméticos, e participa com 80% das vendas da marca em todo o País.
Na época em que montaram o negócio, Dirceu era dono de um depósito de material de construção e Eliana vendia, de porta em porta, produtos de beleza. Filho de sapateiro, 12 irmãos, o marido ingressou no mercado de trabalho aos 12 anos, como balconista de uma mercearia. A esposa também veio de uma família humilde, com o pai comerciante, sete irmãos, e desde cedo ajudou nos afazeres e na renda de casa.
Juntos, Dirceu, 49, e Eliana, 46, conseguiram deixar a origem pobre no passado e entraram para o clube dos ricos. Os filhos, Simone e Davi, trabalham com eles na empresa e foram criados com regalias que os pais nunca tiveram, como carne no almoço todos os dias e estudos em boas escolas. Sabem o verdadeiro valor do trabalho. “Se o dinheiro tivesse subido à cabeça, eu e Eliana não teríamos ensinado aos nossos filhos o quanto é caro cada centavo que entra no bolso”, diz Dirceu.
  
Investindo na qualificação

Nélio Rodrigues/ 1º Plano                

Gedeon Braz tem planos de ingressar na universidade

Gedeon Vieira Braz é cozinheiro especializado em culinária internacional. Já perdeu a conta de quantos pratos de comida francesa, espanhola, japonesa e tailandesa preparou desde que começou a trabalhar em restaurantes sofisticados da capital mineira, há quase dez anos. Aprendeu as receitas e a forma de decorar as refeições nos cursos realizados no Senac, onde acabou se tornando instrutor. “Sempre fui preocupado com minha qualificação profissional”, diz Gedeon, 28 anos, com planos de, em breve, visitar a Alemanha para conhecer os segredos da culinária local.
Como nasceu pobre, filho de um pedreiro com uma cozinheira, ele foi obrigado a adiar os estudos para ganhar alguns trocados abatendo frangos. Somente em fevereiro passado, conseguiu terminar o supletivo do segundo grau. Agora, faz planos de cursar Nutrição em uma universidade. “Achava que ia ser carroceiro ou continuaria abatendo frangos, mas lutei e consegui uma posição melhor”, diz. Seu objetivo na carreira é montar um restaurante de comida internacional e levar a mãe para trabalhar com ele.
  
No topo da pirâmide

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano                 

Filha de lavrador, Ana Roberta da Cruz 
conseguiu entrar para a elite

Ana Roberta da Cruz, 31 anos, começou a trabalhar quando tinha oito anos de idade. Filha de um lavrador de Lagoa Santa, na Grande Belo Horizonte, teve uma infância com poucos brinquedos e roupas novas, morando em uma casa sem luz elétrica e água encanada. Seu primeiro trabalho foi como vendedora ambulante de bijuterias e perfumes. Mais tarde, na adolescência, trabalhou em uma mercearia, exercendo funções de balconista, caixa e até de açougueira.
Sempre ganhando seu dinheirinho, Ana Roberta conseguiu concluir o magistério e, então, foi morar em Belo Horizonte, onde se formou em Pedagogia. Quando não estava na universidade ou estudando em casa, ela se dedicava à venda de roupas, cosméticos, revistas e de tudo o que pudesse lhe render algum ganho. “Já vendi até jogo do bicho e cachaça para pagar minhas contas e ajudar a família”, diz a pedagoga do Centro de Integração Escola-Empresa (CIEE), responsável pelo setor de contato com as escolas de Minas.
Seus sete irmãos não conseguiram progredir muito. Dois deles interromperam os estudos na sexta-série e os outros não passaram do primário. Hoje, são motoristas, trocadores de ônibus, serventes de escola ou empregados domésticos. O próximo passo de Ana Roberta é ingressar no mestrado na área de educação.
  
Renda extra

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano                 

Depois de se formar em Ciências Contábeis, Gerson Gonçalves vai continuar rodando com seu táxi

O taxista Gerson Gonçalves Ferreira Júnior vai se formar em Ciências Contábeis no ano que vem, mas ele nem pensa em abandonar a profissão. O táxi continuará servindo de fonte de renda complementar para a família, como acontece há 20 anos. Das oito da manhã às cinco da tarde, Gerson trabalha como analista de custos de uma pequena empresa e, a partir desse horário, roda com o táxi até por volta de uma hora da madrugada. “Se eu quiser melhorar ou continuar com meu padrão de vida, não posso me dispor dessa renda”, observa.
Gerson trabalha desde os dez anos, quando começou a vender chup-chup para ajudar o pai, que era motorista de uma estatal, no orçamento doméstico. Só conseguiu terminar o segundo grau aos 30 anos, por meio de supletivo. Assim, a universidade foi ficando para mais tarde e, só agora, aos 40 anos, Gerson vai receber seu diploma. “Em breve, estarei prestando vestibular para Direito”, planeja.
  
Driblando o desemprego

Emmanuel Pinheiro/ 1º Plano                      

De engenheiro desempregado, Elberth Pereira 
se tornou empresário 

Elberth Pereira, 41 anos, já viveu o drama do desemprego. Como quase todo jovem que recebe o diploma universitário, tinha sonhos de fazer uma carreira de sucesso na área em que dedicou cinco anos de estudos: Engenharia Civil. Acabou enveredando por outro caminho. Com o diploma na mão e muitas idéias na cabeça, procurou emprego em diversas companhias, mas saiu frustrado. Durante um ano e meio ficou desempregado, chegando até a questionar se teriam, de fato, valido a pena os esforços para concluir o curso superior.
Isso aconteceu em meados dos anos 80, quando o Brasil já andava mal com sua economia. Elberth resolveu, então, aceitar um emprego de vendedor em uma loja de materiais de construção. Ainda bem. Em uma viagem a trabalho em Governador Valadares, Norte de Minas, ele saboreou um peixe assado com preparo nunca provado antes. Trouxe a receita para Belo Horizonte e se aventurou na vida de empresário, montando o restaurante Surubim na Brasa. Hoje, passados dez anos desde a inauguração, Elberth divide com a esposa, Cynthia, a tarefa de administrar as três casas. Membro da elite, nascido na classe média alta, ele conseguiu subir um degrau na pirâmide social brasileira. E revela a fórmula: “é preciso saber conciliar constância, persistência e prosperidade”.

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