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Os prazeres do vinho

 
No inverno, as vendas da bebida chegam a crescer 100% e o melhor é que os importadores ainda trabalham com o dólar a R$ 1,50 para estimular o mercado
 

Teresa Caram

  
O frio convida. Não é à-toa que o bom vinho, bebida preferida do deus Baco desde os tempos do Olimpo, é um dos prazeres mais cobiçados nesta época do ano. Seu sabor, requintado, conquista adeptos das mais variadas idades. A cada dia é maior o número de pessoas que se transformam em enófilos, ou seja, amantes do vinho. Prova dessa preferência é que as vendas da bebida chegam a crescer até 100% com a chegada do inverno.
 

Emmanuel Pinheiro/1º Plano

No inverno, as vendas da bebida chegam a crescer 100% e o melhor é que os importadores ainda trabalham com o dólar a R$ 1,50 para estimular o mercado

  O hábito diário de tomar vinho é um dos mais saudáveis. Mais que uma bebida, o vinho pode ser considerado como um “remédio” para o bom funcionamento do coração, desde, é claro, que consumido com moderação. Além do prazer que proporciona, individualmente ou acompanhado de um bom bate-papo, o vinho desde tempos remotos é utilizado em celebrações – a Bíblia, por exemplo, fala da comemoração de um casamento em que o vinho acabou e que Jesus, a pedido de Maria, sua mãe, fez seu primeiro milagre transformando água no melhor vinho.

  O vinho, como não poderia deixar de ser, completa o prazer de uma refeição, ajudando a salientar o sabor dos diversos pratos. Mas, para isso, deve ser escolhido e bebido corretamente. “Beber vinho é uma arte e quase uma ciência”, falam os entendidos. Por isso, toda fase de uma refeição, desde a escolha dos vinhos à maneira de servi-los, de degustá-los e bebê-los exige uma certa observância de regras, requinte e sabedoria para desfrutar desse prazer.

  Como escolher um bom vinho? Essa é a pergunta mais freqüente de quem quer se iniciar nessa “arte”. Para o enófilo Romain Golgher, que deixou recentemente a vice-presidência da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho em Minas (SBAV-MG), a primeira coisa é avaliar a relação custo-benefício do produto. “De um modo geral, você não tem um bom vinho, feito com qualidade, com preço inferior a R$ 12,00”, diz. Segundo ele, um vinho francês terá sempre uma relação custo-benefício inferior ao vinho chileno, português ou argentino. Ou seja, a bebida francesa ao preço médio de R$ 20,00 terá qualidade pior do que a produzida em outros países.

  Na opinião do enófilo Mauro Marcelo Alves, conhecer vinho é comparar. Segundo ele, às vezes a pessoa gosta de um determinado vinho e não experimenta outro. “Qualidade custa caro, mas existem bons vinhos chilenos e argentinos para quem está começando. Mas fuja dos vinhos muito baratos, porque não há mágica de se produzir com boa qualidade com preço inferior a R$ 10,00”, observa.

  O proprietário da Adega do Mercado e Royal Delicatessen, Flávio de Morais, diz que hoje há uma grande variedade nacional e importada, com boa relação custo-benefício. Mas ele ressalta que se a pessoa não tem conhecimento, deve procurar um bom fornecedor para ter a segurança de que está comprando um produto de qualidade com preço justo. Flávio de Morais também considera que um vinho abaixo de R$ 10,00 perde na qualidade.

  “Há bons produtos no mercado, entre R$ 10,00 e R$ 20,00, que disputam em pé de igualdade”, afirma.
Há pouco mais de um mês em funcionamento, a Adega – que funciona no Mercado Distrital do Cruzeiro, zona Sul de Belo Horizonte – tem 95% do espaço físico destinado ao vinho. Produtos italianos, franceses, neozelandeses, argentinos, portugueses e nacionais têm tratamento diferenciado em espaço climatizado para garantir intacta as propriedades do vinho. O diferencial, diz Flávio de Morais, é o espaço para degustações e harmonizações, com grande variedade de frios e embutidos.

Emmanuel Pinheiro/1º Plano

Romain Golgher ensina que um bom vinho deve ser degustado com todos os sentidos

  Ao invés de o consumidor comprar um vinho que não conhece e se arrepender, pode degustá-lo antes de tomar a decisão. Para que as pessoas possam conhecer vinhos de várias regiões, a cada quinzena a Adega vende seis tipos de vinho em taças, cujo preço varia de 6% a 7% do custo da garrafa. “Isso agrega valor”, diz Flávio de Morais.

  A desvalorização do real, no início do ano passado, não inibiu o consumo de vinho importado, que continua à frente na preferência dos amantes da bebida. Uma das explicações para isso, segundo Flávio de Morais, é que os produtores nacionais melhoraram a qualidade do vinho, mas elevaram muito o preço, enquanto os importadores continuam trabalhando com o dólar a R$ 1,50. “O produto nacional aumentou de 80% a 90% em um ano e meio e hoje há bons vinhos importados com preços inferiores aos nacionais”, explica.

  
Apesar do aperfeiçoamento na técnica brasileira de produção do vinho, Mauro Marcelo Alves, que é profundo conhecedor e autor de três livros sobre o assunto, entre eles Vinhos – A Arte da França, diz que o Brasil não está numa localização favorável para a produção de vinhos. Segundo ele, as uvas viníferas, próprias para vinho, só dão bem em climas temperados porque precisam de inverno rigoroso, primavera não muito chuvosa e solo não muito fértil. “No Brasil não há clima adequado, é questão de respeito à natureza”, diz.

  Mauro Alves, que morou e trabalhou 27 anos em São Paulo como crítico gastronômico, mantém um restaurante sofisticado na cidade histórica de Tiradentes. Lá, ele trabalha com uma seleção de 120 vinhos diferentes, todos importados. Os preços variam de R$ 40,00 a R$ 4.300,00. “Eu mesmo faço a escolha e não há um único vinho que não passe pela minha seleção”, explica. O restaurante Serena só funciona nos fins de semana, exclusivamente sob reserva. A procura nesta época do ano é grande, principalmente por turistas mineiros, paulistas, cariocas e estrangeiros.

  Além da escolha de um vinho de boa qualidade e procedência, há algumas regras para se descobrir todos os prazeres da bebida. Segundo Romain Golgher, para se tomar um vinho, é necessário usar todos os nossos sentidos, a começar pelos olhos. O vinho deve ser observado sob um fundo branco porque a sua cor ajudará a decidir seu tipo e sua idade. Um vinho branco, por exemplo, quando jovem é claro, límpido, e à medida em que envelhece a sua cor começa a amarelar. Já um vinho tinto jovem tem a aparência violácea e quando envelhece, a tonalidade se parece mais com a de um tijolo.

  O segundo sentido é o cheiro. Romain Golgher diz que o vinho deve ser servido em uma taça até a metade para que possa ser balançado e o seu aroma apareça. “Quanto melhor o vinho, mais complexo é o seu aroma”, ressalta. Para sentir o gosto, é necessário tomar um pouco e não engolir imediatamente. Deve-se percorrer o vinho pela boca para se sentir os seus vários sabores. Só assim é possível desfrutar de todo o prazer que o vinho proporciona, observam os especialistas.

  
Esse exercício é feito mensalmente nas reuniões da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho, que conta hoje com cerca de 120 membros pagantes. Romain Golgher conta que todos eles levam um vinho para degustação, sendo que a última reunião foi feita só com o produto de Toscana, região da Itália. “Isso é para aprimorar o paladar e conhecer o vinho de cada região ou mesmo o tipo de uva”, explica. As reuniões são itinerantes, em locais diversificados e os participantes pagam uma “jóia” de admissão no valor de R$ 30,00, além de uma mensalidade de R$ 10,00.

  As propriedades saudáveis do vinho são defendidas tanto pelos enófilos como também pelos médicos. O químico francês Louis Pasteur já dizia que o vinho não deve ser considerado uma bebida alcóolica; é um produto alimentício. “O vinho é a mais sã e a mais pura das bebidas”. Os efeitos benéficos do vinho foram comprovados por um estudo realizado na França, no início dos anos 90, que ficou conhecido como “Paradoxo Francês”.

  Segundo o cardiologista Paulo César Vianna Novaes, o trabalho analisou o nível de colesterol e o índice de doenças coronárias no Norte e Sul da França. Os franceses do Sul (região de Bordeaux) tinham incidência menor de doenças coronárias, mesmo com o elevado consumo de gorduras, bebidas e cigarro. Daí o nome de paradoxo. “Quando foi analisado o perfil do colesterol, percebeu-se que o colesterol total era baixo, o HDL (que é o fator de proteção) era alto e o LDL (que produz o mau colesterol) baixo.

  O flavonóide (antioxidante natural) encontrado na casca do vinho, é a substância apontada como benéfica para a saúde. Segundo Paulo Novaes, vários estudos realizados após esse trabalho confirmaram isso. Ele ressalta que o consumo regular e doses corretas reduzem o índice de doenças coronárias. A pessoa que bebe um pouco todos os dias tem menos chance de ser infartado do que a que bebe apenas nos fins de semana. Doses corretas significam duas a três taças de vinho por dia. “Comprovadamente reduz a incidência de doenças coronárias em torno de 30% a 40%”, diz. Isso, acrescenta, vale para quem nunca ficou doente ou já foi infartado.

  Por tudo isso, o mercado de vinhos tem tudo para crescer, na medida em que se comprova que o apelo do consumo não se resume apenas ao prazer que a bebida proporciona. O vinho é um aliado da saúde.

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