Economia Estado de Minas

 ENTREVISTA/ Manoel Horácio da Silva

 

De patinho feio a operador global

 
A Telemar, maior operadora de telefonia do País, busca parceiro internacional e se prepara para o avanço da competição.
  


  

   Julho de 1998. Acontece o leilão do Sistema Telebrás e a maior operadora de telefonia da América do Sul, a Telemar, acabar ficando nas mãos de um consórcio nacional. Mal começou a operar, a empresa ficou envolvida num turbilhão de notícias, envolvendo seu consórcio controlador, que culminou com o episódio do grampo telefônico que até derrubou o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros.

   Dois anos depois, a holding que contempla 16 empresas de telefonia regionais, incluindo a Telemar Minas (ex-Telemig), distante da polêmica, vai muito bem operacionalmente. Até mesmo a Telemar Rio, antiga Telerj, tida como patinho feio e considerada como gargalo no grupo, caminha a passos largos para tirar o atraso herdado da era estatal. Lá, estão sendo instalados nada menos que 5 mil linhas por dia, contra as 2,6 mil diárias em 1999.

   No comando desta gigante operadora está o ex-vice-presidente da Vale do Rio Doce, Manoel Horácio Francisco da Silva. Ele avisa que este ano estão sendo investidos na holding R$ 2,9 bilhões. E anuncia para 2001 mais R$ 4 bilhões de investimentos. Tudo para que sejam antecipadas as metas acertadas com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e, a partir de janeiro de 2002, a empresa possa disputar os demais mercados de telefonia fixa e também celular. “Nosso objetivo é ser um grande operador global”, diz Manoel Horácio. Nesta entrevista, ele fala um pouco mais sobre o setor e a Telemar.

ECONOMIA – Agora em julho a privatização da telefonia completa dois anos. Qual o balanço que o senhor faz do setor?
MANOEL HORÁCIO – O País ganhou como um todo. Os consumidores também, pois aprendeu a reclamar. E quando reclama é atendido, por isso reclama muito. Daí o aumento de reclamações no Procon, pois antes não reclamava. Agora, viu que tem direitos. Tudo isso porque todas as operadoras estão fazendo uma administração focada no cliente. Outro ganho importante: a expansão do sistema na telefonia fixa foi de 40% a 50%. Nestes dois anos de privatização, significa que se fez muito mais do que foi feito durante os 40 anos de Sistema Telebrás. O volume de investimentos dedicado ao mercado de telecomunicações não tem nada que iguale realmente. Quando se fala em telefonia móvel, triplicou-se o crescimento. Portanto, sem dúvida, valeu a pena privatizar.

ECONOMIA – Mas há muitas reclamações quanto à qualidade dos serviços oferecidos pós-privatização...
MANOEL HORÁCIO – A expansão do sistema é tão rápida, que as companhias ainda estão devendo alguma coisa mesmo. A partir de agora e no próximo ano, as operadoras começam a trabalhar pesado na melhoria de qualidade. Mas não se pode esquecer de que a maior falha que havia, a falta de linhas disponíveis aos clientes, já foi saneada.

ECONOMIA – E no caso da Telemar, quais os ganhos obtidos?
MANOEL HORÁCIO – Em termos de custos, diria que não ganhamos tanto. O maior ganho de custo foi o unitário. Como a planta foi expandida em cerca de 50% e não aumentamos os custos, pelo contrário, baixamos, aí o custo por terminal ficou bem menor. Nossa produtividade dobrou. Apesar do enxugamento na estrutura, passamos a ter de investir em outras áreas. Não existia o custo nas áreas de marketing e propaganda, por exemplo. Cortou-se em algumas áreas e aumentou-se em outras. Só para se ter uma idéia, em 1998 a Telemar gastou R$ 20 milhões com propaganda. Ano passado, já privatizada, foram R$ 130 milhões. E este ano estaremos gastando R$ 250 milhões.

ECONOMIA – Mas que outros custos passaram a pesar na estrutura da operadora?
MANOEL HORÁCIO – São custos que ninguém previa. Como o que é pago pelo direito de passagem, através de rede de outros. Vínhamos gastando de interconexão pelo uso da rede Embratel R$ 68 milhões, só para se ter uma idéia. Por isso, estamos construindo nossos próprios meios. Mas só com o direito de passagem que o DNER nos cobra, para podermos passar nossas redes pelas rodovias, são nada menos que R$ 30 milhões por ano. As empresas de energia, através de suas infovias, agora nos cobram pelo uso de seus postes valores dez vezes maiores que os cobrados anteriormente. Com a privatização, muitos estão vendo uma boa oportunidade de aumentar seus faturamentos. E uma hora quem vai ter de pagar por isso tudo é o consumidor final.

ECONOMIA – Para crescer tão rápido é preciso investir muito. Quanto a Telemar já investiu e ainda pretende investir até o próximo ano?
MANOEL HORÁCIO – Ano passado, investimos R$ 2,5 bilhões. Este ano, serão R$ 2,9 bilhões. E em 2001, vamos aplicar R$ 4 bilhões. Porque vamos antecipar todas as metas de universalização e qualidade de dezembro de 2003 para dezembro de 2001. Daí a puxada de investimentos violenta no próximo ano.

ECONOMIA – Tanto investimento é para enfrentar a competição com as espelhos e agora também as espelhinhos?
MANOEL HORÁCIO – Quem não está sendo atingido hoje são as classes D e E. E elas dão prejuízo. Não gastam nem 90 impulsos por mês. Nos dão R$ 12,00 por mês e nos custam R$ 25,00 para operar cada terminal. Não temos medo. Nossa maior precaução é com o mercado corporativo, de pequenas e médias empresas, com altos faturamentos por linha. É aí que todo mundo quer atacar. A partir de 2002, quando o mercado se abrir, vamos querer entrar no mercado corporativo de São Paulo, por exemplo. Quem atende bem as classes A, B e C não precisa ter medo de espelhinho, espelhão... Pelo respeito à concorrência é que estamos melhorando os procedimentos e melhorando a qualidade para fidelizar o cliente.

ECONOMIA – A disputa com a Vésper é ainda mesmo tímida no nível local?
MANOEL HORÁCIO – Não que esteja tímida. Talvez tenha havido uma euforia inicial quanto à possibilidade de uma espelho entrar e começar a ganhar mercado. Não é tão fácil. Existe uma fidelização normal. Mesmo os clientes que estão razoavelmente atendidos não vão trocar de operadora. Quem está melhor atendido não vai ao jornal bater palmas. Vínhamos de 1,5 mil reclamações no Procon do Rio e no último mês fechamos em 300. Isto com aumento da planta em 50%. Olha que a qualidade da rede do Rio, herdada de 30 anos de desmandos, é péssima. Temos dois anos para trocar tudo.

ECONOMIA – E nos interurbanos, como está a disputa?
MANOEL HORÁCIO – No interestadual (entre os 16 estados que abrangem a Telemar) estamos com cerca de 70% de participação. Já no intraestadual (dentro de cada um dos 16 estados) detemos 45%. Na média, temos uma posição confortável, de 58% de participação, isto já incluindo as espelhos Vésper e Intelig. Acho que este ganho se deve à boa presença na mídia e ao bom desempenho da rede. A partir de agora, vamos investir em campanhas pontuais, focadas onde nossa participação ainda não é a ideal. Em breve, vamos também lançar tabelas de tarifas mais simples, de melhor entendimento para o consumidor.

ECONOMIA – Muitos críticos reclamam da redução de empregos pós-privatização. Qual a sua opinião sobre o assunto?
MANOEL HORÁCIO – Quando se fala que as empresas privatizadas reduziram seus quadros de pessoal, se esquecem de adicionar todas as novas que entraram no mercado, não as de operação direta na telefonia fixa e celular. Aumentou muito a utilização de pessoal no setor, devido à abertura. No nosso caso, reduzimos a estrutura de pessoal em 30%, principalmente através dos planos de demissão incentivada. Mas, olha, tínhamos quadros anteriores muito pesados. Com racionalização de sistemas e processos tivemos esta redução. E a estrutura ainda está meio pesada. São 40 mil empregados, diretos e indiretos. Se compararmos com as empresas-espelho, que não vão passar de três mil funcionários, deixamos de ser competitivos.

ECONOMIA – Fazendo uma comparação com indicadores internacionais, em que patamar se encontra a Telemar?
MANOEL HORÁCIO – O maior ganho que estamos tendo é com o aumento da produtividade por terminal. Mas ainda estamos abaixo do padrão mundial. Temos algumas teles, como a Telemar Minas e a Telemar Bahia, que vão atingir este nível este ano ainda. Mas as outras 14 empresas da holding ainda estão distantes disso. Mas temos de trabalhar forte para chegar lá. Nosso objetivo é ser um operador global no futuro, não só operar no Brasil todo, mas também ter saída para o exterior.

ECONOMIA – O que significa mesmo este conceito de operador global?
MANOEL HORÁCIO – É não estar restrito aos limites do País. Vamos entrar mundo afora. Mesmo que não compremos ninguém lá fora, teremos de montar alianças e parcerias para chegar aos Estados Unidos, Europa e Ásia, principalmente. Mas para conseguirmos boas alianças, temos de ser mais competitivos internamente, para que, ao juntarmos estruturas, sejamos competitivos mundialmente.

ECONOMIA – Para se tornar mais competitivo é preciso simplificar a estrutura. A idéia, por exemplo, seria ter apenas um centro de controle para toda a holding, que seria em Minas. A quantas anda este processo?
MANOEL HORÁCIO – Hoje, temos quatro pontos básicos nesta otimização sistêmica: de billing (faturamento), tratamento de clientes, engenharia e gestão. Todos sendo implementados nas 16 empresas de forma uniforme. Vamos ter uma coordenação central. Quanto aos call centers (centros de atendimento ao cliente), eram 118 e hoje são apenas 17. E vão ficar basicamente em cinco. A centralização de dados da companhia está sendo toda migrada para a Telemar Minas. De 17 Centros de Processamento de Dados que tínhamos, teremos apenas um, em Minas. Tudo isto ficará pronto até novembro deste ano. Assim, vamos ter maior eficiência e agilidade na administração.

ECONOMIA – Não é segredo que a Telemar está em busca de um sócio operador estrangeiro. Quando ele chegar e encontrar estrutura não haverá problemas?
MANOEL HORÁCIO – Estamos fazendo uma transformação na operação da empresa, que nunca vi ninguém fazer em nível mundial. Tudo ao mesmo tempo. É de tirar o chapéu. Nossa visão forte não é de curto, mas de médio prazo. Estamos colocando a Telemar em boas condições para entrar no ambiente competitivo em 2002. Agora, o sócio não é uma preocupação na nossa operação hoje. Nós somos operadores. A Telebrás era operadora. Não precisamos de um sócio para operar a Telemar de forma eficiente. Não quer dizer que somos auto-suficientes. Toda ajuda é bem-vinda. Mas o sócio estratégico quando vier será muito importante para esta conexão nossa com o mundo. Em 2002, vamos poder operar na longa distância internacional e qualquer aliança com quem tiver uma rede internacional vai nos dar mais velocidade. Também pelo lado da internet, se vier um parceiro com experiência, sem dúvida, vai agregar bastante.

ECONOMIA – Mas o que há de concreto quanto à chegada deste sócio?
MANOEL HORÁCIO – Olha, ninguém está discutindo ou negociando com ninguém ainda. Quanto aos nomes que circulam, é tudo fantasia. O que aconteceu foi que nossos controladores contrataram uma consultoria para procurar possíveis candidatos que possam vir a fazer parte da companhia. Até agora, nada aconteceu. Foi feito um data room, onde quem quiser vai lá, pega os dados e futuramente vem discutir propostas com os acionistas controladores. Não há pressa, prazo final para isso. Está em aberto. Nem vai ser tão rápido assim, pois estamos falando da maior empresa da América do Sul, que tem base instalada violenta, potencial de crescimento muito grande e qualquer negociação sobre isso vai dar trabalho.

ECONOMIA – Antes, a idéia era o BNDESpar vender seus 25% de participação na holding em leilão. Agora, já se fala em cada sócio vender uma pequena parte. Mudou o modelo para chegada do novo sócio?
MANOEL HORÁCIO – Sempre existiu a idéia do BNDESpar vender seus 25% em leilão. Isto é uma coisa. E até agora o governo não está interessado em vender. Agora, os sócios controladores se propõem a vender um pedaço para atrair o sócio estrangeiro. Nosso potencial de lucro anual é bem maior que R$ 1 bilhão.

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