Economia Estado de Minas

.GESTÃO

 

Inovação e liderança

  
As empresas feitas para durar são aquelas que têm poder de adaptação contínua ao mercado, oferecendo a melhor combinação entre preço, qualidade e gerenciamento.
  

Vicente Falconi Campos*

  
Lembro-me perfeitamente de meu pai, há 50 anos, em suas campanhas de economia dentro de casa: “Apague a luz, meu filho, você está pensando que seu pai é o Matarazzo?”. Hoje, poucos jovens saberiam quem foi o Conde Francisco Matarazzo. As estatísticas mostram que poucas empresas permanecem vivas por um período muito prolongado. A maioria acaba morrendo ou se enfraquecendo, sendo comprada ou fundindo-se a outras. Por que isto ocorre?

   As organizações são estabelecidas para satisfazer às necessidades do mercado (como o mercado é formado por pessoas, isto significa “necessidades das pessoas”) através de seus produtos. Acontece que estas necessidades mudam no tempo, surgem outros produtos para atender às mesmas necessidades, mudam os costumes, novas matérias-primas são desenvolvidas propiciando menores preços, novas tecnologias de fabricação possibilitam melhor qualidade de produto e custo menor, novas tecnologias de gerenciamento permitem ganhos ilimitados de produtividade, surgem novos regulamentos governamentais, etc.. O cenário externo muda constantemente e o razoável seria que o ambiente interno das organizações fosse muito dinâmico. Isto nem sempre é a verdade.

   Nós criamos organizações (empresas ou departamentos de empresas) para determinados fins. Muitas vezes os fins se tornam desnecessários e as organizações permanecem. Outras vezes as organizações são estruturadas através das afinidades das funções, ofuscando os processos de criação de valor. Criam-se hierarquias verticais, fragmentando o trabalho e inibindo as iniciativas, com conseqüente perda de eficácia e de agilidade no processo decisório.

   O Gerenciamento da Inovação consta de métodos e técnicas para projetar produtos e seus processos em função das necessidades das pessoas. Uma maneira de inovar é desenvolver um novo produto (e um novo processo) para algum nicho de mercado ainda não satisfeito. O Gerenciamento da Inovação é, ainda, o questionamento constante dos produtos (externos e internos) e seus respectivos processos dentro da empresa. 

   Neste caso, quando se deseja inovar, a primeira pergunta a ser feita é: o produto ainda é necessário? Este produto pode ser um treinamento, uma fatura, um relatório financeiro ou a limpeza de uma sala. Se o produto é desnecessário, elimina-se o produto e o seu processo! Se o produto for ainda necessário, pode-se reprojetar o processo, tendo em vista as novas tecnologias e os novos conhecimentos, com ganhos substanciais. Tenho visto, em algumas empresas, departamentos inteiros serem simplesmente eliminados.

  
O processo de Inovação depende muito da sensibilidade quanto às necessidades do mercado e de se estar disposto a mudar constantemente o seu processo para atender a estas necessidades mutantes. Produto excelente hoje (rentabilidade elevada) pode ser commodity (rentabilidade baixa) ou produto desnecessário amanhã. Pela minha experiência, a maioria das organizações nem mesmo conhece seus produtos internos e externos! Conheci empresas que mantiveram, durante anos, toda uma linha de produtos que apresentava prejuízo, sem que nada fosse percebido.

   Não há como inovar produto ou processo sem sentir o mercado. Certas instituições mantidas pelo Estado não inovam ou custam a inovar porque não têm a sua sobrevivência dependente do mercado. Da mesma forma, regimes políticos dissociados da economia de mercado estão fadados ao fracasso pela ausência do fator motivador da Inovação das organizações: a preferência das pessoas!

   Inovar não é, necessariamente, adotar tecnologias novas. Inovar é se adaptar continuamente ao mercado, produzindo um produto (bem ou serviço), em condições de qualidade, custo e atendimento que supere os concorrentes na preferência das pessoas. No entanto, o aparecimento de novas tecnologias pode provocar inovações em cadeia. É esse, por exemplo, o caso da internet e das várias possibilidades que são abertas ao comércio entre empresas e entre estas e seus clientes. 

   A FDG – Fundação de Desenvolvimento Gerencial – tem realizado, em várias empresas, um trabalho de Gerenciamento da Inovação que está na fronteira do que se faz de moderno no mundo, utilizando-se em alguns casos softwares complexos e profundo conhecimento científico. As economias para as empresas têm sido da ordem de 40% de seus custos! Este Gerenciamento da Inovação se inicia pelo questionamento da missão da própria empresa, da estratégia, dos valores, dos processos internos e das necessidades de seu mercado. A mudança deve ser a constante dentro de uma organização. Uma posição de competitividade hoje pode ser a condição de morte amanhã. Sem mudanças constantes não existe a sobrevivência. 

   Por outro lado, apesar do conhecimento existente e disponível, as organizações definham e morrem porque nós, seres humanos, somos arraigados à rotina e muito conservadores (às vezes disfarçados por palavras e comportamentos aparentemente modernos). Além disso, muitos de nós somos doentiamente receosos de mudanças que ameacem a nossa estabilidade pessoal e emocional. Como consultores empresariais são, essencialmente, agentes de mudança, sentimos na pele, em nosso dia-a-dia de trabalho, a reação patológica de rejeição de algumas pessoas emocionalmente despreparadas para o mundo atual e que, pelo seu comportamento, trazem um grande prejuízo à sua empresa e ao seu país.

  
Mudar é muito difícil e a presença de um líder é da mais alta importância para que isso possa acontecer. O líder dá àquelas pessoas resistentes a segurança necessária no difícil processo de mudança. Temos visto empresas irem de mal a pior pela falta de um líder. Acontece que aqui, mais uma vez, entra a variabilidade do fator humano. Aparentemente existem vários tipos de líderes, alguns nem sempre positivos. Conheço alguns que são apegados ao poder a tal ponto que passam a maior parte de seu tempo maquinando condições para fortalecê-lo. No entanto, conheço outros, verdadeiros estadistas estratégicos, que exercem o poder de olho no mercado e no futuro, arregimentando pessoas excepcionais, desenvolvendo sua equipe e tomando as ações necessárias, a cada momento, para a sobrevivência de sua empresa.

   Procurando um resumo de tudo que aprendi em minha vida, na prática, no dia-a-dia nas empresas, sei que existem três fatores que são vitais para a sobrevivência de uma organização: conhecimento gerencial (métodos e ferramentas), conhecimento técnico (ciência e tecnologia) e liderança. No entanto, este último é a condição limitante, pois os outros nem ao menos serão absorvidos sem que haja uma firme liderança que saiba o que deseja. O verdadeiro líder é precioso como um diamante. A sobrevivência das organizações depende da Inovação constante dos sistemas empresariais comandada por estas pedras raras e preciosas. Como é difícil encontrá-las!

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