Economia Estado de Minas

.UM GIRO PELO MUNDO

 

De novo, a dívida

   Um estudo do economista Michael Hood, do banco JP Morgan, aponta que a América Latina ainda continua vulnerável a choques externos, apesar das desvalorizações cambiais recentes em países como Brasil, Chile e Colômbia. É certo que um regime cambial flutuante permite maior flexibilidade, pois é possível estimular exportações com pequenas desvalorizações, mas o problema é que na maioria dos países latinos a dívida externa cresceu aceleradamente nos últimos anos.

   De acordo com os dados do Morgan, a dívida cresceu em termos nominais e também em relação ao tamanho do PIB e das exportações latino-americanas. No Brasil, por exemplo, a dívida externa saltou de US$ 169 bilhões, em 1993, para US$ 245 bilhões, no ano passado. Isso representa 45% do PIB e 406% das exportações nacionais. Na média do continente, a dívida passou de 39% para 44% do PIB da região, no mesmo período.

   Tendo de arcar com o pagamento mais pesado de juros na dívida externa, os países latinos teriam de gerar excedentes comerciais mais vigorosos. Só que a reação das exportações às desvalorizações, especialmente no caso brasileiro, não foi a esperada. Dificilmente o governo brasileiro conseguirá cumprir a meta de um superávit de US$ 4 bilhões este ano.

   Entre todos os países latino-americanos, a grande exceção é o México, que reduziu seu endividamento externo em todos os critérios. Isso ocorreu em função do forte ritmo de crescimento nos últimos quatro anos – cerca de 5% – e da proximidade com os Estados Unidos, que permitiu um crescimento estrondoso das exportações.

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Depois do último pacote fiscal argentino, 
dezenas de milhares de manifestantes 
protestaram contra o pagamento da dívida externa
  

Os vilões americanos

   A inflação americana está ou não de volta? A ligeira alta recente justificaria a decisão do Federal Reserve (FED), o banco central americano, de elevar seguidamente as taxas de juros? Essas são as grandes dúvidas dos analistas que acompanham a evolução da economia americana e divergem sobre o superaquecimento – ou não – do maior PIB do planeta.

   O fato é que houve uma aceleração recente do chamado núcleo da inflação – ou core inflation – que passou de 2% para 3% ao ano. O maior responsável por essa alta, com elevação de 15%, foi o setor de energia, em função do alto consumo industrial e também da alta recente dos preços do petróleo. Nos últimos 12 meses, em alguns setores, como vestuário e comunicações, houve até deflação. No segundo caso, isso é mais um sinal da tendência global de redução dos custos telefônicos.
   
   O maior problema dos Estados Unidos é que, com um crescimento de 7% no primeiro trimestre deste ano e a menor taxa de desemprego da história, dificilmente será possível conter as pressões por ganhos salariais. Isso poderia forçar o Fed a elevar ainda mais os juros, pressionando o mercado acionário e, eventualmente, colocando a economia americana em recessão.
  

Alguém falou em crise?

   Pouca gente notou, mas nunca a economia global cres-
ceu tanto quanto no primeiro trimestre do ano 2000. O salto foi de 5,6% e, o que é mais importante, o crescimento distribuiu-se de forma relativamente homogênea entre as diversas regiões. 

   Os países desenvolvidos cresceram 5%, com bons resultados nos Estados Unidos e no Japão, enquanto os países em desenvolvimento tiveram ganhos de 8% – com alta de 10,6% na Ásia e 6,4% na América Latina. Isso indica que, mesmo que ocorra o chamado pouso suave da economia americana, haverá outras válvulas de escape para a economia global.
  

Países digitais

A Economist Intelligence Unit, divisão do grupo inglês Pearsons, que tem publicações como o jornal Financial Times e a revista The Economist, acaba de preparar um ranking de competitividade para a nova economia. A idéia é classificar os países que estariam melhor preparados para atividades relacionadas ao comércio eletrônico e, em sentido mais amplo, ao chamado e-business.

   Como não poderia deixar de ser, os Estados Unidos encabeçam a lista, mas são seguidos por três países nórdicos: Suécia, Finlândia e Noruega. Entre os critérios avaliados, entram ítens como número de acessos à internet em relação à população total, disponibilidade de recursos para financiar novos empreendimentos, nível educacional e custos dos serviços de telecomunicações.

   O Brasil aparece em uma posição intermediária: fica com a 35ª posição, atrás de outros países latinos como Chile, Argentina e México. O curioso é que não é bem assim que o País é visto pelos donos do dinheiro. É justamente no Brasil que vem ocorrendo uma das mais acirradas disputas por clientes e profissionais na internet. O País também responde por cerca de 80% de todo o comércio eletrônico na América Latina. No ranking, o Brasil foi prejudicado por baixos índices educacionais, que tiveram forte peso no índice, mas certamente tem uma posição melhor na percepção dos investidores.
  

Um gigante suspeito

   O recente acordo com os Estados Unidos, que permitiu a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), foi saudado como um importante passo para a normalização das relações comerciais do país. A China, o maior mercado emergente em todo o mundo, não poderia mesmo ficar de fora. Com exportações anuais de US$ 183,8 bilhões, e um superávit superior a US$ 40 bilhões, o país responde sozinho por cerca de 3,5% do comércio global.

   O grande problema, porém, é a qualidade das práticas comerciais chinesas. Sob acusações de dumping (vendas abaixo do custo) em diversos mercados e campeã mundial em pirataria, a China obtém grande parte de seus excedentes comerciais de forma contrária aos padrões da OMC. É por isso que muitos temem que a adaptação do país à OMC possa trazer mais desemprego para o país, ao menos no curto prazo.
  

Reconquista ibérica

   A presença espanhola está por toda a parte e os investimentos diretos das companhias ibéricas nos últimos anos ficaram atrás apenas dos realizados por empresas americanas. Mas em nenhum setor a reconquista foi tão intensa como no mercado bancário. O lance mais recente foi a compra do mexicano Bancomer, segundo maior banco latino-americano, com US$ 40,8 bilhões em ativos, pelo BBVA. A aquisição fez com que a instituição espanhola tomasse a liderança do também espanhol Santander na região. Os dois bancos possuem cerca de US$ 77 bilhões em ativos apenas na América Latina, chegando a US$ 150 bilhões quando se considera o volume global.

   Se os dois maiores bancos brasileiros, Bradesco e Itaú, quiserem chegar perto dos espanhóis, a privatização do Banespa, que ocorrerá no segundo semestre, será crucial. O banco estatal paulista possui US$ 15,6 bilhões em ativos e sua aquisição pode fazer com que uma instituição nacional chegue perto da liderança.
  

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Agência do Bancomer, no México: a compra fez do BBVA o maior banco da América Latina
  

Cadê o lucro

   Ainda que tenha havido uma recuperação recente nos preços 
das ações de tecnologia, as quedas recentes das bolsas em todo o mundo podem ser explicadas pela falta de critério dos investidores, a partir do fim da década de 90.

   Isso pode ser demonstrado por um estudo do economista Jay Ritter, da Universidade da Florida, que apontou um aumento das operações de abertura de capital, ou seja, mais empresas venderam ações a terceiros nos últimos anos.

   Há, porém, um detalhe em toda essa história. Até meados da década de 90, cerca de 80% das empresas que abriam seu capital possuíam algum histórico de lucros. Com a onda da internet, os investidores passaram a ser cada vez menos exigentes até que, em 1999, só 23% das operações que fizeram, o chamado IPO – Initial Public Offering ou oferta pública inicial – já tinham publicado algum balanço no azul.

   Desde março deste ano, os investidores começaram a desconfiar que muitas empresas avaliadas em dezenas de bilhões de dólares, mesmo sem receitas expressivas e operando no prejuízo, poderiam vir a quebrar. Foi isso o que fez com que as ações desabassem, fechando o mercado para novas aberturas de capital.

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