Economia Estado de Minas

.OPINIÃO

 

Quanta insensatez!

  
A disputa entre Minas e a União já beira o ridículo, prejudicando interesses nacionais e do Estado
  

Baptista Chagas Almeida*

  
Nas estradas mineiras, as placas avisam: na curva à esquerda do governador Itamar Franco há um entroncamento perigoso de embate com o presidente Fernando Henrique Cardoso. A disputa política contamina os verdadeiros interesses da população.
Enquanto não se define quem vai cuidar das rodovias federais – as placas de perigo colocadas pelo governo do Estado em nada contribuem para evitar acidentes – os cidadãos, reles mortais, são retirados aos milhares anualmente das ferragens.
 

Montagem com fotos de Renato Weil, 
Carlos Humberto/ sucursal Brasília e Marcelo Sant’anna

Atenção, perigo: desavenças entre Itamar Franco e Fernando Henrique prejudicam a população
  

   As estatísticas não mostram a dor das famílias que perderam pessoas queridas. Os números, contudo, servem para mostrar os prejuízos – e não apenas em relação às estradas – que os mineiros sofrem por causa das desavenças entre o governador e o presidente.

   No caso das estradas, o primeiro prejuízo é de exatos US$ 165 milhões, ou cerca de R$ 300 milhões. É este o valor do financiamento que estava acertado com o Banco Mundial e já constava do acordo de refinanciamento da dívida estadual firmado pelo governo passado. Com a moratória, voltou à estaca zero.

   É difícil que o dinheiro venha a sair. Pelo menos em curto prazo. Depois de renegociar com o Banco Mundial, o governo mineiro precisa enfrentar uma extensa burocracia e, mais difícil, convencer o governo federal a dar parecer favorável à concessão do empréstimo. Atualmente, os técnicos entendem que Minas Gerais não tem capacidade para fazer novas dívidas. É este parecer que os senadores apreciam. Sem a aprovação do Senado, o dinheiro não sai.

   Na mesma situação está outro grande empréstimo do Banco Mundial. Desta vez, são US$ 170 milhões, mais de R$ 300 milhões, destinados à reforma administrativa do Estado. É a mesma história do financiamento das estradas. Estava aprovado, constava do acordo da dívida, estava tramitando no Senado. Com a moratória, parou. E deve ficar assim.

   Não custa lembrar que o refinanciamento das dívidas estaduais proíbe novos endividamentos. Exceção apenas para os projetos já incluídos no acordo. Caso dos dois empréstimos do Banco Mundial.
Voltando às estradas, é preciso citar a rodovia Fernão Dias. O número de acidentes na rodovia que liga Belo Horizonte a São Paulo caiu de forma significativa nos trechos que já foram duplicados. E continuam muito altos nos outros pedaços da estrada. Mas as obras em Minas Gerais estão paradas. Falta duplicar o trecho que vai de Nepomuceno à divisa com São Paulo.

   A obra tem recursos garantidos pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Para este ano, o Orçamento da União havia previsto R$ 200 milhões para a duplicação na parte mineira da rodovia. Mas este dinheiro não vai sair.

   Por causa de pedidos de reajuste nos contratos já firmados para esses trechos, o governo de Minas foi obrigado a refazer a licitação. O BID não gostou do edital e determinou que fosse totalmente reformulado.

  
Há esperança de que o novo edital saia ainda este mês. É insuficiente, contudo, para que as obras sejam retomadas antes da temporada de chuvas. A concorrência é internacional e leva, pelo menos, quatro meses para ser concluída. Isso, é claro, se não houver os tão comuns recursos administrativos contestando o resultado da licitação. Se o edital sair em julho, mais os quatro meses, estaremos em dezembro. Os R$ 200 milhões já ficaram para o ano que vem.

   O prejuízo total, com a soma de outros projetos menores também parados, aproxima-se da casa de R$ 1 bilhão. É dinheiro que iria movimentar ainda mais a economia mineira, que tem tido performance superior à média nacional, mas deve este desempenho às suas características próprias. O Estado foi beneficiado pela desvalorização cambial, já que são exportadores os setores de metalúrgia e siderurgia, sem falar na Fiat, maior vendedora no exterior entre as montadoras.

   O futuro, no entanto, não parece reservar prognósticos tão otimistas. Exemplo é a nova fábrica da Embraer, que voou para São Paulo, apesar de Minas ter oferecido boas condições e das vantagens estratégicas comparativas que o Triângulo – onde ela se instalaria – oferecia.

   Não é para menos. Fica difícil saber até com quem negociar. Enquanto o governador Mário Covas (PSDB), de São Paulo, entrou ele próprio na negociação – jantou com a direção da Embraer – Minas foi tímida na briga.

   Afinal, enquanto a Embraer decidia, o governo tinha um secretário de Indústria e Comércio interino (Paulino Cícero, acumulando a Pasta de Minas e Energia), um convidado (o deputado Hélio Costa – PMDB), que só não assumiu porque seu suplente é do PFL e vota com FHC, o que Itamar não aceitou) e ainda um secretário Viúva Porcina, o que foi sem nunca ter sido (o deputado estadual Eduardo Daladier, do PDT, que aceitou o cargo num dia e desistiu no dia seguinte). Não é à-toa que a Embraer bateu asas.

   É nesta toada que Minas Gerais vem sendo administrada. Os efeitos em longo prazo podem ser muito prejudiciais. O próprio governador Itamar Franco pode vir a ficar sabendo disso. Um político muito ligado ao vice-governador Newton Cardoso, mas que tem muito acesso a ele, chegou a receber um telefonema de um consultor da Morgan Stanley, intrigado com o delírio da história de “invasão” de Minas por tropas federais. Dá para imaginar o que os consultores estrangeiros estão dizendo aos investidores que pedem informações sobre Minas Gerais.

*Baptista Chagas Almeida é jornalista.

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