|
| Violência Implícita |

|
Se o brasileiro é pacífico, como explicar tanta violência? |
| |
Deusdedith Aquino
No livro Raízes do Brasil, escrito na primeira metade do século XX,
o historiador Sérgio Buarque de Holanda formulou o conceito de que o brasileiro é um ser
pacífico. Ao longo do tempo, o adjetivo foi acrescido de qualificações como bom,
ordeiro, trabalhador, solidário e outros igualmente positivos. Houve polêmica sobre a
visão de Holanda, mas ninguém provou o contrário e sua máxima permanece em vigor. Ou
permanecia?
O filósofo francês Jean-Jacques Rosseau afirmava que o homem é bom,
a sociedade é que corrompe. O lema foi utilizado pela geração de 68 como
argumento em defesa do socialismo alternativo ao capitalismo. Havia sonho. Hoje, o modelo
único, de um capitalismo selvagem, predomina no mundo. A exacerbação do materialismo,
do consumismo e da concorrência, em meio às desigualdades que não se reduzem, cria o
terreno propício para novas explosões. Por ora, a maioria está explodindo para dentro,
em angústia, medo e insegurança.
É certo que, num cenário desses, a violência tende a crescer. Trata-se de
um fenômeno mundial. Se o quadro não mudar, a violência pode estar apenas começando.
Ao invés da era de Aquarius, com a qual sonhou, a geração 68 está vendo a
era do Dragão, cuspindo fogo por todas as ventas. A guerra mundial, tão
temida dos anos 50 aos 90, cedeu lugar à guerra urbana e à guerrilha rural por razões
não políticas.
Há poucos dias, durante a celebração da Torcida de Deus, no Mineirão, o
arcebispo de Belo Horizonte, cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, lembrou uma frase
do pastor norte-americano Martin Luther King, pacifista assassinado na década de 60 por
defender os direitos dos negros: Ou o ser humano encontra uma maneira de viver em
paz ou vai acabar todo mundo doido. Quarenta anos depois, na falta da paz, crescem a
violência, o medo, a loucura.
Fechemos o foco sobre nós, brasileiros. As últimas estatísticas indicam
que 47 mil pessoas são assassinadas por ano no País. O mesmo número de vítimas fatais
em acidentes de trânsito. Quais as razões? O assunto merece um tratado profundo e não
tenho a pretensão de esgotá-lo num artigo. Abordo o tema como contribuição à
reflexão e ao exame das causas de tamanha calamidade. É dever do jornalismo de cidadania
contribuir levantando temas para abordagem coletiva.
Uma causa que salta aos olhos é a desigualdade de renda. O Brasil possui uma
das piores distribuições de renda do mundo. Ao mesmo tempo, entrou no modelo global de
competição acirrada num momento de ajuste econômico com recessão. E não adotou
políticas sociais compensatórias. Quem está mal vai de mal a pior. A globalização
trará benefícios para todos a longo prazo, dizem os arautos do primeiro mundo. Mas e
até chegar o longo prazo? Dizia o economista inglês John Maynard Keynes, nos anos 30:
A longo prazo estaremos todos mortos.
Ouço o ministro Camilo Penna chamar a atenção, desde os anos 70, para um
aspecto importante da evolução do País: Examine a situação dos pais. Se os
filhos estão conseguindo viver melhor do que seus pais, é sinal de que o país
melhora. Em decorrência da realidade econômica, pela primeira vez neste século a
próxima geração poderá ter mais dificuldades para vencer na vida que a de
seus pais. Especialmente nas camadas de classe média. Resultado: a falta de perspectivas
traz a desconfiança. A dura realidade acentua a desesperança. Os que sofrem ficam a um
passo da revolta.
A reação imediata dos cidadãos é olhar para os poderes públicos. A velha
tradição paternalista faz com que se esperem soluções via ações governamentais. O
que vemos? A falência do ente Estado. Endividado, paquidérmico, lento e distante da
realidade das ruas, o Estado seja União, estados ou municípios encontra-se
inerte, incapaz de dar respostas na velocidade que a situação exige. Senão respostas
preventivas, pelo menos ações conseqüentes. Nada.
O combate à violência, por exemplo, tem sido pontual e ineficaz. A sensação de
impunidade acentua a ausência de credibilidade das autoridades e serve de estímulo a
novos crimes roubos, assaltos, seqüestros, mortes. Faltam às autoridades desde
meios materiais a polícia trabalha sob condições precárias em todas as suas
instâncias e a justiça é estruturalmente lenta até vontade política da parte
de alguns, por razões eleitoreiras.
De outro lado, a violência germinada no ventre social, acrescida pela
tendência natural do ser humano de se defender em ambientes hostis, vai se tornando um
fim em si mesma, pelo efeito-demonstração. Não tenho ilusões quanto à existência de
um núcleo do mal nos seres humanos, convivendo com a pulsão do bem. Este núcleo tem de
ser reprimido pela educação e pelas leis e não estimulado pelo meio social.
A lamentar existe ainda a agressividade entre os jovens. Há poucas semanas,
num jogo de futebol entre colegiais, em Belo Horizonte, um adolescente gritava na torcida:
Vamos quebrar tudo. Daí a pouco, uma bombinha de São João estourou próximo
ao goleiro do time visitante, causando susto no ginásio. Ora, porque quebrar tudo? Aonde
está a educação de alguém que joga, impunemente, uma bombinha na quadra de esportes de
um colégio classe média alta?
Torcedores quebram ônibus para o Mineirão, destroem-se orelhões de
companhias telefônicas. É o vandalismo, outra forma de violência urbana. E não se
cometa a injustiça de dizer que pobres são violentos por natureza. O mal está
distribuído por todas as camadas sociais. Talvez não por todas as idades, porque os
muitos jovens e os idosos são pacíficos. Na pobreza, ele é maior, em grande parte, por
defesa social.
Em resumo, porque o espaço é pequeno e o problema enorme, trata-se de uma
das cinco questões mais graves que o Brasil enfrenta atualmente, ao lado de desemprego,
saúde, educação e desorganização urbana. É importante alertar, finalmente, para que
a sociedade não conte muito com soluções vindas dos poderes públicos. Elas serão
sempre paliativas e insuficientes.
A própria comunidade tem de se mobilizar na luta contra a violência, dentro
das leis. Começando com cada pessoa. Pergunte-se: De que forma eu contribuo para a
violência?. E comece combatendo o que identificar em você, nas relações com a
família, com os vizinhos, no trabalho, na rua, no lazer. Seja um agente da paz, embora
haja tanta violência ameaçando a paz de todos. Ser pacífico ainda vale a pena. |
|